Gente que é + com Marco Magoga

Existem pessoas que são inteligentes. Tem pessoas que militam de forma rasa e sem conteúdo. E tem pessoas que agrupam tudo isso e muito mais, como é o Marco Magoga. O blog que ele alimenta é excepcional e vale a visita (clique aqui). Um cara coerente nas observações e com conteúdo consistente. Espero que você curta a leitura desta entrevista, tanto quanto eu curti. Boa leitura!

Conheci seu trabalho a partir da indicação do Franz Wasielewski que faz parte do Hashtag Bazar aí no Rio. Me conta mais como iniciou sua militância e quais são suas conquistas?

Eu não comecei escrevendo sobre militância. Eu sempre gostei de moda, e já tinha feito algumas colaborações tanto em blog pessoal como em blogs gringos como fashionglobal. E aí quando uma galera teve a ideia de começar o site A Coisa Toda, precisavam de gente que escrevesse sobre moda e eu fui indicado. Comecei falando de moda mas de maneira mais política, e depois de um post sobre moda pra homens gordos que repercutiu comecei a focar mais em questões do corpo gordo. Daí pra surgir a coluna O Grande Close, focada só em militância gorda, foi um pulo. Atualmente não estou mais no A Coisa Toda, mas ainda em janeiro de 2018 vem aí o site O Grande Close, retomando as discussões da Coluna e trazendo novidades. Além disso, a Coluna já me proporcionou falar sobre gordofobia em eventos, debates, escolas… E isso é muito importante, levar essa discussão pra quem geralmente não acessa os textos na internet. Militância pra mim é trabalho de formiga, eu realmente acredito que dá mais resultado falar profundamente com audiências selecionadas de maneira aprofundada do que diluir conteúdos para alcançar mais pessoas.

 O Rio de Janeiro é uma grande referência do Brasil no exterior, porém quando o assunto é movimento plus size, o Rio não é tão expressivo assim. Na sua opinião, por qual razão acontece isso?

Temos que fazer uma diferenciação aqui, entre o movimento plus size de moda e militância gorda em si. A própria ação da gordofobia impede maiores avanços da moda para pessoas gordas, porque uma das premissas da estrutura gordofóbica é justamente a acessibilidade. Moda não é só tendência, moda é inclusão social. Pessoas gordas são estereotipadas como desleixadas, mas quantas marcas você conhece que trabalham com tamanhos maiores que 60? (E no contexto atual trabalhar com tamanhos acima do 50 já é ponto fora da curva). Quantas marcas de alta costura se dedicam a pessoas gordas? Quantas marcas de alfaiataria existem e quantas delas se preocupam com as especificidades de corpos maiores, sem só aumentar os tamanhos da grade regular? O Rio de Janeiro, especificamente, é sedimentado no imaginário popular como o lugar dos corpos sarados e dourados, e muitas marcas não querem associar seus nomes a pessoas gordas, fabricando roupas maiores e com modelagens outras que não a modelagem magra. É uma pena, porque é um mercado absolutamente ainda não explorado por conta de um ideal errado do que é o corpo certo” a se vestir.

Nos últimos tempos temos visto pessoas gordas em campanhas publicitárias, com um pouco mais de destaque e não estereotipadas. Você acredita que esse cenário continuará em 2018? Por que?

Algumas marcas, especialmente as marcas de cosméticos, que durante anos ganharam dinheiro colocando padrões inatingíveis de beleza, começaram a perceber que empoderamento VENDE. É aí que a gente precisa tomar cuidado. O papel da militância e das discussões políticas no sentido de defender a diversidade é extremamente importante, e é sim importante que todas as pessoas se sintam representadas midiaticamente, porque todos os corpos, etnias e expressões de gênero são válidas. Mas precisamos tomar cuidado se não começamos a basear nossa auto-estima em cima de um discurso de empresas que usam a diversidade somente pra vender produtos. Quem eu sou independe do que a marca X ou Y pensa de mim ou dos produtos que ela tem a me oferecer. Pra uma pessoa gorda se ver representada em algum canal midiático é importante (assim como para negros, mulheres, lgbtqi+ e qualquer outra minoria social), mas também é importante que o empoderamento venha de uma consciência política do corpo e dos motivos da exclusão, e que não esteja baseado só em publicidade, porque só isso não garante acesso a direitos básicos que nos são subtraídos.

 O movimento liderado pelas mulheres na aceitação do seu corpo já trouxe conquistas importantes, mas quando olhamos para nós homens, estamos muito distantes de uma unanimidade. Me parece que as mulheres tem mais facilidade de se organizar e criar sinergia entre várias iniciativas em prol de um foco maior. Qual é o problema conosco?

O problema pode ser resumido em uma palavra: privilégio. Vivemos numa sociedade desigual, que classifica as pessoas por gênero, cor da pele, orientação sexual, biotipo. E essa sociedade é extremamente patriarcal, ou seja, os homens dominam as estruturas de poder desde… sempre. O privilégio de gênero sempre vai beneficiar homens, independente de outras opressões que eles possam sofrer. O que isso quer dizer? Homens gordos não sofrem gordofobia? Sofrem sim. Pra sofrer gordofobia basta apenas ter um corpo gordo. Só que na vida prática muitas vezes o privilégio de ser homem acaba amortecendo alguns dos efeitos da gordofobia, fazendo com que os homens (especialmente os homens brancos cis héteros cristãos de classe média) tenham dificuldade em desenvolver empatia e até de reconhecer que existem estruturas de poder na sociedade. Mulheres nascem sob o sistema patriarcal, e por isso o caminho para o desenvolvimento de uma consciência de grupo geralmente é mais “simples”. Por que muitos dos homens engajados em militância gorda são da comunidade lgbtqi+? Pelo mesmo motivo, porque quem sofre algum tipo de opressão tem maior capacidade de desenvolver empatia e geralmente maior capacidade de articulação coletiva. A militância gorda masculina não existirá de fato enquanto não for questionada e destruída a masculinidade hegemônica.

Conta ai que marca você admira, mas que #comprariamasnãotem. Use o espaço para sugerir quem deveria entrar no segmento plus com os dois pés.

Eu nunca liguei muito pra gênero, então não se assuste por haver marcas femininas entre as marcas desejo: 

Entre as marcas brasileiras, usaria Farm, Cantão, Vitorino Campos, Walerio Araújo e Samuel Cirnansck. Entre as internacionais, Jeremy Scott, Miu Miu, Thierry Mugler e Balenciaga.

Dentre as marcas que têm condição de investir no segmento plus, eu ressaltaria a Adidas Originals, por exemplo.

Mas a gente sabe que o que impede marcas-desejo de fazer roupa pra gente gorda não é falta de recurso, é falta de vontade política mesmo. Associar-se a pessoas gordas é considerado negativo, mesmo ao se considerar como os lucros aumentariam com todas essas pessoas consumindo os produtos. Não é à toa que Marc Jacobs só começou a atuar como garoto propaganda da própria marca depois de perder peso, ou Karl Lagerfeld se propôs a perder dezenas de quilos só pra caber numa jaqueta do Hedi Slimane. A gordofobia é tão naturalizada na indústria da imagem que é preferível perder dinheiro com o consumo de uma grande fatia da população a associar a marca a pessoas gordas, e isso é muito triste e precisa mudar.

Por isso defendo que a saída pra essa crise do consumo-desejo excludente é concentrar a atenção nos pequenos produtores, nas roupas pensadas pela especificidades do corpo gordo e não somente tamanhos menores aumentados e com sistema slow fashion, com responsabilidade social inclusive na contratação e remuneração da mão de obra.

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